A constelação familiar, Familienstellen, é uma abordagem filosófica de cunho fenomenológico e refere-se aos relacionamentos.

A partir desse trabalho fica evidente que os relacionamentos seguem determinadas ordens, assim como o corpo segue determinadas ordens para manter-se saudável (Hellinger, 2013).

A palavra ordem foi traduzida do alemão ordnungen, que significa “em ordem”, ou seja, que cada coisa tem o seu lugar.

Essa expressão não se refere ao ato de dar ordens, ordenar, ou exigir algo.

 

As ordens do amor são descobertas de Bert Hellinger e atuam, de forma inconsciente, sobre as nossas relações. Da mesma forma que a gravidade atua sobre a massa (matéria) e influencia o movimento do nosso corpo, as ordens do amor são leis naturais, forças que regem a forma como nos relacionamos na vida.

As três ordens do amor são: 1) pertencimento 2) hierarquia/ordem 3) equilíbrio, para que as relações fluam é preciso que haja equilíbrio entre o que se dá e se recebe. Ao estar em ordem com essas leis o amor e o fluxo da vida podem fluir (Hellinger, 2013).

  1. Pertencimento

A primeira ordem do amor é o pertencimento. Todo indivíduo tem o direito de pertencer ao seu sistema familiar, sua cultura, sua nação e a todos os sistemas que faz parte. Todo individuo está ligado a seus pais e ao seu clã como uma comunidade de destino. Todo clã se comporta e se mantém coeso por uma força que une a todos, essa força é movida por um senso de ordem e equilíbrio que atua sobre todos que pertencem ao clã.

 

Pessoas que pertencem à família, ao clã:

  1. Todas as crianças, incluindo as abortadas, natimortas, entregues à adoção, não legitimadas ou esquecidas também pertencem.

  2. Os pais e seus irmãos de sangue, incluindo os abortados, que morreram precocemente, esquecidos ou entregues para adoção.   

  3. Ex-companheiros dos pais

  4. Avós, salvo raras exceções, sem seus irmãos.

  5. Em casos excepcionais, ex-companheiros dos avós.

  6. Todos, cuja morte ou perda precoce proporcionou algum benefício aos membros da família, ou de alguma forma garantiu a sobrevivência da família e seus descendentes.

  7. Se algum membro da família foi responsável pela morte de outrem, suas vítimas passam a pertencer à família.

  8. Se algum membro da família foi vítima de um assassino, esse também passa a pertencer à família.

  9. Pessoas que foram prejudicadas pela família, de forma que os membros da família obtiveram vantagens por essa razão, também passam a pertencer a ela.

Quando o direito de pertencimento em um grupo é recusado a algum indivíduo, independente das razões dos seus membros, um descendente se identifica com ele e repete seu destino de forma inconsciente, sem conseguir evitar. Ele é movido pelo senso de compensação da consciência coletiva, mesmo sem conhecer o excluído ou sua história.  

Um conceito que auxilia na compreensão desse fenômeno é o “campo espiritual”, também denominado Campo Mofogenético e Campo Mórfico pelo cientista inglês Rupert Sheldrake. Segundo Sheldrake, acontecimentos e sentimentos prévios de uma família ou grupo permanecem numa espécie de memória coletiva. O grupo ou família também possuem uma consciência coletiva que direciona cada um de seus membros a fim de garantir seu pertencimento ao campo espiritual e à família. Portanto, em uma constelação familiar pode vir à tona relações e dinâmicas até então ocultas com outros membros da família (Hellinger, 2019).    

Quando essas dinâmicas vêm à luz e os fatos do passado podem ficar no passado, independente do que tenha ocorrido ou do que tenham feito; os excluídos podem, finalmente, serem vistos e incluídos, com dignidade. A partir desse lugar, os antepassados passam a trazer bençãos, não mais temor, aos seus descendentes. Ao concedermos a eles o lugar que lhes cabe em nosso coração e em nossa alma, ficamos em paz com eles e nos sentimos mais completos, pois levamos conosco todos que pertencem.     

   

  1. Hierarquia

Essa lei é regida pelo tempo de pertencimento, a ordem de chegada no sistema familiar ou grupo determina o lugar do indivíduo. Aquele que veio primeiro tem precedência sobre o que veio depois, ou seja, o avô tem precedência ao filho e ao neto.

Cada membro tem o seu lugar e violar essa lei traz consequências devastadoras.

Na consciência pessoal um filho pode assumir algo por amor ao seu pai, de forma inocente ele se sacrifica e se justifica com base em razões nobres. Isso lhe garante uma boa consciência. Ao mesmo tempo, ele viola a hierarquia da consciência coletiva. Como essa consciência é poderosa, essa violação é punida com o fracasso e, algumas vezes, até com a morte. Essa lei mostra porque muitas tragédias acometem pessoas que pensam estar fazendo o bem. “Quem vem depois nunca pode ajudar quem veio antes”!

A constelação familiar revela quando a hierarquia é violada. Ao tomar a ação de retornar ao seu legítimo lugar, o indivíduo restaura a ordem, assume seu próprio destino e sua vida pode encontrar o fluxo espiritual em direção ao sucesso.    

 

  1. Equilíbrio entre dar e receber

 

Quem determina a ordem entre dar e receber é a nossa consciência. Sempre que recebemos algo sentimos a necessidade de devolver e compensar o que foi recebido, de forma equivalente. Nós nos sentimos livres apenas depois de equilibrar o foi recebido com o que foi dado.

Essa compensação não acontece apenas para o bem. Quando recebemos algo ruim também sentimos a necessidade de devolver algo ruim. Isso acontece com a vítima, ao planejar sua vingança; e com o culpado, ao expiar sua culpa.

O desequilíbrio entre dar e receber na relação pode comprometer o vínculo e até levar ao fim do relacionamento.

Apenas na relação entre pais e filhos a compensação entre dar e receber é anulada. Cabe aos pais darem tudo, que têm, aos filhos e aos filhos receberem de tudo que seus pais lhes deram. Os filhos não podem compensar o que os pais lhe deram, uma vez que eles lhes deram a vida. Essa compensação poderá ser feita no futuro, quando eles poderão dar aos seus filhos e para a vida o que receberam de seus pais.         

A ordem não consegue ser superada pelo amor, pois a alma e o equilíbrio vêm antes e movem a todos visando a justiça e o equilíbrio, mesmo que isso custe a felicidade e a vida.

As tragédias podem ser evitadas ao conhecer a ordem e segui-la com amor. Isso é humildade.

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Essas ordens e desordens também são transferidas para o corpo e tem papel importante com relação às doenças e à saúde física, anímica e espiritual (Hellinger, 2015).

No dia 12 de março de 2018, no Rio de Janeiro, durante a abertura do 1º Congresso Internacional de Práticas Integrativas e Saúde Pública (INTERCONGREPICS), o Ministério da Saúde (MS) incluiu a Constelação Familiar às práticas integrativas oferecidas pelo SUS.

O reconhecimento da Constelação Familiar pelo MS é um avanço para a área da saúde, pois esse trabalho nos possibilita olhar além do sintoma. De acordo com essa abordagem, a doença está a favor da saúde, ela é uma mensageira do sistema e da alma.

O cuidado necessário com o crescimento do seu campo de atuação é que a Constelação não é um método. Trabalhar com essa abordagem é algo muito sério e requer responsabilidade. A formação para constelador familiar é longa e profunda, pois esse é um trabalho de autodesenvolvimento.   

Além de promover um olhar mais amplo para a situação trazida pelo cliente, a constelação familiar também traz clareza para os cuidadores com relação aos caminhos que os levaram a encontrar sua vocação.

A profissão geralmente está associada à história de vida das pessoas. Se o profissional está identificado com a dor do cliente ele poderá ter dificuldade em ajudá-lo, pois projetará no outro a própria dor e não o verá com clareza.

 

Segundo as “ORDENS DA AJUDA” trazidas por Bert Hellinger, estar a serviço do cliente é se colocar à disposição sem intenção/julgamento, sem medo, sem piedade e sem amor cego/sem querer salvar.   

Os profissionais são facilitadores do processo e, para isso, precisam ter consciência sobre seus comportamentos. Para gerar uma mudança no outro é preciso SER, não basta ter o conhecimento. A consciência nos permite ser um exemplo congruente do discurso e inspiração para mudanças que queremos no mundo. 

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Esse trabalho que desenvolvi é fruto de anos de estudo e observação. As descobertas que fiz ao observar os casos que atendia sob a ótica da Constelação Familiar trouxeram mais clareza ao meu trabalho e possibilitaram-me integrar todo conhecimento que havia ao longo dos anos como nutricionista, doula e tantas outras áreas que estudo.

Aplicar a abordagem da Constelação Familiar à ciência da nutrição nos permite olhar para o que está vinculando o indivíduo ao comportamento alimentar indesejado, qual é a ordem do amor que está em desequilíbrio e onde é preciso atuar para que o pulsar de vida possa fluir.

Se um cliente me procura como nutricionista eu não facilito uma Constelação Familiar. Minha forma de atender possui esse olhar e faço algumas observações ou intervenções sistêmicas. Eu ouço, observo, escrevo e oriento as famílias com esse olhar mais amplo. Conforme os clientes conhecem esse trabalho e me procuram com esse objetivo, eu a realizo.

Esse trabalho não substitui as demais áreas da saúde e sim as complementa.

A nutrição é uma área complexa, pois envolve aspectos bioquímicos, fisiológicos, psicossociais, culturais, ambientais, políticos, vínculos sistêmicos, crenças, entre outros. Quem traz uma questão alimentar traz consigo todos esses aspectos de sua vida. Trabalhar nessa área requer um olhar integral para o indivíduo.  

 

A força dessa forma de atuar está em devolver à pessoa a responsabilidade e a autonomia pelas suas escolhas, comportamentos e resultados.

Referências bibliográficas:

Hellinger, B. A cura: tornar-se saudável, permanecer saudável. Belo Horizonte: Atman, 2014. 144p.

Hellinger, B. O amor do espírito. Belo Horizonte: Atman, 2011. 224p.

Hellinger, B. Ordens da Ajuda. 3 ed. Goiânia: Atman, 2013. 248p.

Hellinger, B. Ordens do Amor: um guia para o trabalho com as Constelações Familiares. São Paulo: Cultrix, 2007.424p.

Hellinger, B. O essencial é simples. Goiânia: Atman, 2006. 256p.

Hellinger, B. Olhando para a alma das crianças. Belo Horizonte: 2015.p. 272.